Quatro estações

Texto e fotos: Caio Guedes
Colaboração: Pablo Aguiar
quatro estações
É engraçado pensar que pisei em Hossegor pela primeira vez há 3 anos... parece que foi ontem. Cada temporada foi animal e todas foramcompletamente diferentes entre si, mas com uma constante: BARRELS!
Foram milhares de tubos fotografados e cada um segue gravado na retina. Em cada "saison" tinha alguma bancada de areia que simplesmente funcionava com perfeição... "A onda do momento". Em 2006, a estreia, logo com as bancadas mais famosas se exibindo: Graviere e La Nord. Em 2007, a bancada da praia nudista Les Culs Culs soltava baforadas com qualquer tamanho de swell. Em 2008, a bancada do VVF parecia Disneyland. Já agora, em 2009, me parece um pouco bizarro até este instante. Em quase 15 dias que estou aqui só fotografei 2 ou 3 tubinhos, que nem entrariam na conta se tivesse rolado algum swell decente. Desde que cheguei aqui estou tentando descobrir o que está havendo...
A maioria das sessões de fotos que fiz foram no pico Les Bourdaines, o mais constante, que quebra com qualquer swell e qualquer tamanho. Enquanto os outros picos só oferecem condições de surf em determinada maré, ali tem o dia todo uma vala definida para quebrar o galho. Foi no Bourdaines onde rolou todo o Quiksilver Pro e o King of the Groms. Se nos anos anteriores o WCT na França teve ao menos um dia clássico, em 2009 o campeonato acabou rolando praticamente todo em dias consecutivos, com o mar piorando a cada hora transcorrida, em ondas que não fizeram jus ao potencial da região. A organização do evento achava que não adiantaria esperar por dias melhores, pois a previsão era a pior possível. Na vala de esquerda, contra uma forte corrente, os brasileiros perderam ainda nos primeiros dias de competição. O melhor entre eles foi Heitor Alves, que tinha tudo para avançar mais se não tivesse caído em algumas tentativas de aéreos na bateria contra Jordy Smith, no round 3. O campeonato foi se desenrolando sem muita graça até as fases finais, onde, para minha surpresa, não tinha nenhum goofy footer. Mick Fanning mostrou que tem muita garra e levou a etapa, embolando o ranking nas últimas etapas, enquanto todos viam Joel Parkinson como virtual campeão de 2009.
the king
Terminado o evento principal, ainda restava o King of the Groms (KOTG), campeonato mundial para surfistas com menos de 16 anos. Os representantes brazucas eram (meu xará) Caio Ibelli e Gabriel Medina, que surpreendeu a todos com a precoce vitória no WQS da Maresia na Praia Mole. O pequeno fenômeno brasileiro conseguiu fazer uma performance ainda mais avassaladora na França do que no Brasil, embora não tão inesperada. Nas sessões de freesurf, também eram impressionantes as suas manobras. Na véspera da decisão, Julian Wilson apareceu com uma trupe de cinegrafistas para mais uma sessão de surf. Parecia fora de sintonia com a onda, mas desistiu mesmo da queda depois de ver umas 3 ou 4 ondas do Gabriel, eventualmente com aéreo na primeira manobra, depois uma batida chutando e a finalização com aéreo rodando. Parecia que Medina estava ensaiando o repertório do dia seguinte. Para chegar à final arrasou todos os oponentes com médias perto dos 20 pontos possíveis. Caio também chegou à decisão, mas a final brazuca tinha um favorito e acabou dando a lógica. Gabriel Medina estava encaixado na vala de esquerda, que no dia das finais do KOTG estava muito melhor que no dia decisivo do WCT. No primeiro 10 da final ele abriu a onda com um aéreo chutando e finalizou com um aéreo 360º. Logo em seguida, pegou outra onda e mandou de cara uma manobra que quase ninguém tenta em competição, muito menos na primeira manobra, o aéreo superman. Para emendar, sem perder a linha, mandou um aéreo 360º muito alto.
Morssegor, o "life da vida" ( na perspectiva de um cambojano )
Morsegor... foi mais ou menos isso que virou essa vinda para cá, viramos quase morcegos de tanta night e falta de ondas. Eu nunca tinha vindo para o sul da França, mas posso dizer que isso aqui é apaixonante. O clima em setembro é muito agradável. Nem muito quente nem muito frio, assim aquela francesinha mais linda da night pode ser encontrada no outro dia na praia de topless. Essa foi uma barca em que eu vim totalmente independente, pois no Brasil nenhuma marca se interessou em ajudar. Parece que elas ainda não enxergaram o quanto o vídeo é uma ferramenta de marketing importante. Da para contar nos dedos as marcas que têm um pouco dessa visão no nosso país. Eu e o Jean da Silva estávamos planejando produzir algo juntos para o meu projeto novo há algum tempo e dessa vez deu certo. Logo depois da última etapa da perna europeia do wqs ficamos de nos encontrar em Hossegor, na casa de uma família francesa onde já estava hospedado o Loïc, que é outro brasileiro que está no caminho dos filmes independentes. Ele por sua vez tem uma visão de captar cenas muito bonitas. O nome dele é difícil de guardar, mas tenho certeza que das mãos dele ainda surgirão projetos interessantes. Também conseguimos convencer o surfista uruguaio-garopabense Marco Giorgi a se juntar a nós, e a barca estava formada com dois surfistas que seriam registrados por dois pontos de vista. No dia que fomos a Biarritz o brasileiro figuraça John Magrath, que vive na França, nos levou para ir produzir cenas de surf e lifestyle pela região onde ele mora. Com o seu carro caixa de fósforo turbo 2.0 rodamos pelos melhores lugares de Biarritz. Apesar de eu não ter visto as verdadeiras ondas que a França proporciona, eu realmente me apaixonei por este lugar. As ondas são "na cara", o que facilita muito a produção de vários ângulos diferentes, o lifestyle do lugar também é muito interessante para se filmar. E as francesinhas... na real, nem quero mais lembrar delas senão não volto para casa. Vive la vie!
mística
De Hossegor, vamos direto para Bakio ou Sopelana, onde deve rolar boa parte da próxima etapa do World Tour da ASP, pois não há nenhuma previsão de swell para Mundaka nos primeiros dias do prazo de espera do Billabong Pro. Algo muito estranho está acontecendo com a temporada 2009 e não duvido que esteja relacionado com Kelly Slater, a minha teoria é a seguinte: desde que o Slater ficou careca e resolveu voltar ao circuito mundial, depois de alguns anos fora, que o WCT misteriosamente dava muito pé quente na maioria das etapas e sempre rolava um clássico depois do outro, etapa após etapa. Alguns campeonatos foram épicos porque coincidiram com swells históricos, como o evento no México em 2006, ou o dia da final dos irmãos Irons aqui na França mesmo em 2004. Parece que, desde que começaram a rolar os primeiros boatos do tal Rebel Tour* do Kelly, as ondas perfeitas deixaram de aparecer nas datas do World Tour da ASP.
Ok, ok, ok, devo estar pirando mesmo... é só um pé frio passageiro, mas se não der onda em Mundaka ou Portugal vou voltar com tudo com a minha teoria que é tudo culpa do careca alienígena... confiram nas próximas edições...
nota do editor: o pé frio passou dias depois... Em Sopelana, Caio Guedes documentou a histórica primeira vitória de Adriano de Souza no World Tour. Solto é pé quente rapaz! Confira nesta edição a conversa exclusiva, em primeira mão, com o Adriano.... Furamos eles!


