Berlim depois do muro

 

 

 

Texto e Fotos: Jerri Rossato Lima

 

Eu caminhava pela Friedrich Strabe observando as pessoas e tudo o que se movimentava ou acontecia na rua. Estava há algumas horas caminhando e fotografando nas ruas de Berlim, quando vi uma vitrine de livros e resolvi entrar. Era uma loja enorme, vários andares para livros, DVDs, CDs e muitas coisas mais. Encontrei no primeiro andar alguns ótimos cadernos de anotações e fui para o andar superior à procura de livros e filmes. Já estava desviando minha atenção para vários outros livros e DVDs  que despertavam meu interesse, quando achei melhor perguntar a um vendedor onde encontraria alguns trabalhos do cineasta alemão Wim Wenders. Ele me mostrou onde estavam os DVDs e depois me levou até a seção de livros, onde havia apenas um livro do Wim Wenders. Era um livro de fotos que eu não conhecia. Havia sido lançado há poucos meses em função de uma exposição que foi feita em Berlim com aquelas imagens. Eram fotos feitas numa cidade do Japão. Wim Wenders sempre fotografou cidades, e eu já havia visto uma antiga exposição dele em Porto Alegre, com paisagens panorâmicas. Olhei as fotos do livro e nas páginas finais fui buscar mais informações. Havia um texto do próprio cineasta/fotógrafo dizendo que o que o levou até aquela cidade do Japão foram os filmes de um cineasta japonês. A forma como a cidade aparecia retratada nos filmes levou Wim Wenders a querer conhecer e fotografar a cidade (com filme e sem retoques, como ele fez questão de dizer no texto, para transmitir com mais fidelidade a cidade real). E foi o que ele fez.

Lendo de pé com o livro nas mãos e uma mochila com minhas câmeras nas costas, percebi que era isso o que eu também estava fazendo em Berlim. Um dos motivos que me levou até a principal cidade da Alemanha foi a vontade de conhecer alguns lugares que Wim Wenders usou de locação para as histórias de alguns de seus filmes. Além do cinema de Wenders, a música sempre foi outra forte referência que apontou para Berlim, começando pelas próprias conexões feitas pelo cineasta alemão com gente como Nick Cave, Lou Reed e U2 (só para citar a old school) e outros nomes do rock que fizeram da passagem por Berlim momentos expressivos de suas trajetórias.
Existem coisas que permanecem em mim durante muito tempo, tempo suficiente para serem esquecidas enquanto continuo em movimento. E em algum momento lá na frente aquelas antigas referências retornam aos pensamentos e dão um certo sentido ao que acontece. Ler aquelas palavras no livro foi como encaixar algumas peças de um quebra-cabeça e isso deu um novo contexto à minha viagem, como se só depois de encontrar aquele texto no livro a viagem até Berlim começasse a revelar o seu próprio sentido.

Era meu terceiro dia na cidade e eu caminhava e fotografava pelas ruas o tempo todo. Quando as pernas pediam uma pausa, por volta das dez da noite, e o frio já não era mais a sensação agradável que fazia lembrar do sul do Brasil, transformando-se numa hostilidade fustigante, eu me recolhia para o calor do Helter Skelter Hostel, onde pessoas de várias nacionalidades e das mais diversas idades também estavam hospedadas. Depois de descarregar as imagens digitais feitas durante o dia, quando me esticava na cama era possível ouvir estranhos hinos de louvor entoados pelas minhas pernas em agradecimento pelo descanso e pelo quarto aquecido. Na manhã seguinte eu estabelecia o lugar aonde iria, algum ponto da cidade que eu queria conhecer, e saía andando para me deixar levar por tudo o que pudesse acontecer no trajeto até aquele objetivo. Pensar em chegar num objetivo era a apenas o ponto de partida para a subjetividade desta viagem por Berlim. E sempre eram as coisas inesperadas do caminho que criavam oportunidades para as melhores experiências, algumas vezes,  e as melhores fotos, outras vezes.

Poucos dias depois da minha estadia em Berlim seriam comemorados os 20 anos da queda do muro que dividiu a cidade durante 28 anos e tornou-se motivo de vergonha do comportamento humano em todo o mundo. Para além dos olhares apressados e condicionados dos turistas, o muro de Berlim sempre fez e continuará fazendo pensar sobre tudo o que aconteceu com as pessoas naquela cidade, todas as histórias desencadeadas por egos alucinados e interesses financeiros que movimentaram as marionetes políticas e impuseram o terror extremo. Olhar para a cidade hoje e ver a vida pulsando através das suas belezas, buscando equilíbrio entre o antigo e o moderno, inspira a compartilhar a alegria das pessoas que tornam isso possível no dia a dia.

No início de mais uma noite fria, depois de conhecer o que sobrou do muro de Berlim, atravessei o rio e fui até o bairro de Kreuzberg. Minhas roupas não eram suficientes para seguir em frente. Tive que procurar alguma roupa para comprar. Um moletom preto na vitrine de uma pequena loja me pareceu adequado para suportar a baixa temperatura. Entrei e fui dar uma olhada. Havia uma estampa no moletom que dizia "demokratendiktatur". Perguntei ao rapaz que estava na loja se aquela estampa era feita por eles mesmos. Oliver era seu nome e ele explicou que todas roupas eram feitas pelo pessoal da loja e ele era quem fazia as estampas exclusivas. Eu quis saber qual era a opinião dele em relação a aquela "ditadura democrática", se tinha a ver com o que estava acontecendo atualmente. Oliver disse que a situação na Alemanha não estava fácil, principalmente ali no seu bairro, que sempre foi um local de moradores tradicionais, trabalhadores e operários. Nos últimos anos muitas pessoas tiveram que abandonar o bairro para buscar melhores condições de vida em outras partes da cidade ou do país. A política colaborava com interesses comerciais. Grandes empresas estavam se instalando no bairro para explorar suas qualidades, sem levar nenhum investimento que beneficie ou valorize os moradores. Ele cita seu próprio exemplo, mostrando as roupas velhas que estava usando, porque acabara de chegar de seu outro trabalho regular. A loja de roupas ele mantém junto com sua mãe e alguns amigos apenas porque é o que ele realmente gosta de fazer. Mas também não sabe até quando vai conseguir ficar ali.

Do outro lado da cidade, uma noite de rock na Zapata, uma casa de shows da Oranienburger Strabe trouxe melhores perspectivas com relação a Berlim, fazendo lembrar por que a cidade é uma das maiores capitais culturais do mundo, atraindo pessoas dos mais diversos lugares para visitar, estudar ou viver tudo de melhor que uma cidade europeia pode oferecer. No meu caso, prosseguindo com as longas caminhadas em tardes de sol, uma ótima surpresa foi encontrar uma mostra especial do trabalho do fotógrafo Robert Frank no C/O Berlin, possibilitando mais uma vez encaixar outras peças importantes do quebra-cabeça através do qual foi se formando uma imagem que parece mostrar e reafirmar que a opção de viver fotografando realmente pode fazer algum sentido.  

Uma pequena câmera digital, discreta, prática e muito funcional e uma câmera de plástico com filme 35mm serviram de instrumentos para registrar o que acontecia nos lugares de Berlim por onde passei em outubro de 2009. A câmera maior saía da mochila em algumas situações em que seus recursos faziam uma boa diferença, sem despertar a atenção das pessoas ou interferir na fotografia. E assim, com algumas das muitas histórias vivenciadas em Berlim,  foi feita esta trajetória, sempre através de fragmentos, sempre incompleta, onde cada foto vai se tornando um novo passo que traz em si todos os passos anteriores que fizeram chegar até ali, mantendo ao mesmo tempo sua própria singularidade e o diálogo com outras fotos, outros caminhos, outras histórias, outras pessoas, outras viagens.